
Em 399 a.C, Sócrates, o primeiro dos grandes filósofos da história, é levado perante um júri popular em Atenas. Na época, ele tinha setenta anos. Segundo seus denunciantes, Sócrates estava corrompendo a juventude com suas idéias esquisitas sobre novos deuses.
De fato, nos seus diálogos com jovens discípulos – entre eles Platão – Sócrates introduzira uma nova divindade ou daimon: uma força interior humana que, segundo ele, o detinha quando estava prestes a fazer algo errado. Aquele misterioso espírito-guia, depois apelidado de “consciência” ou confundido com “caráter”, trazia à tona um individualismo inaceitável para os democratas atenienses.
Ética, Sócrates ensinava, consistia em fazer o Bem, o que tornava o homem dono de si, e consequentemente, feliz. Foi também o primeiro a falar em consciência moral, o foro íntimo que permite distinguir o Bem do Mal.
O foco socrático é o indivíduo confrontado com o abismo de si mesmo. Depois, Platão (427-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.) enfatizaram o caráter social de ética – a sua relação com o bem comum, com a prática de manter relações justas e aceitáveis com os outros. “Não se pode conceber ‘muitos` sem o ‘um`” dizia o último. Mas é de Sócrates a idéia de que cada pessoa nasce com um senso ético, uma capacidade de fazer opções boas ou más, certas ou erradas, justas ou injustas, e que é isso que mais nos diferencia das outras espécies.
Resta a pergunta: por que a ética não é plenamente praticada se traz a felicidade? Resposta: porque ela envolve escolher um rumo a seguir. Por exemplo: mentir para não prejudicar um colega?; demitir alguém para reduzir custos?; sonegar impostos para sobreviver? Escolher, por outro lado, exige distinguir entre o Certo e o Errado – o que só é possível quando se tem valores claros. E isso é privilégio de poucos.
“Quem ‘vive’ seus valores agoniza ante escolhas morais. Os que deixam esses valores
apenas pairarem sobre a vida, sequer percebem que tais escolhas precisam ser feitas.”
O único grande requisito
Na Inglaterra, a fome aperta e as arcas reais estão vazias. Estamos em 1642, ano em que os embaixadores ingleses nem sequer são recebidos pelos príncipes da Itália ou do Oriente. Na ilha, pequenos proprietários rurais lideram um levantamento contra Carlos I, o monarca do momento. Encabeçando o movimento, um fidalgo de fortes convicções religiosas: Oliver Cromwell.
Cromwell reúne um regimento de homens “bem armados interiormente pela satisfação de sua consciência, e, exteriormente, por armamentos de ferro”. Comandantes amigos, como o duque de Manchester, estranham o fato de Oliver escolher “não soldados ou senhores de propriedades, mas homens comuns, pobres e de obscura filiação”. Cromwell tem uma explicação prática para isso: “Se escolhermos homens honestos e de bem para capitães de cavalaria, os homens honestos os seguirão. E alguns homens honestos são preferíveis a homens em grandes quantidades”.
O empenho de Cromwell em usar o caráter como critério de seleção de líderes foi revolucionário na sua época. E seria ainda hoje. É que em vez de ele se perder na busca de predicados modernosos como hedge e drive, Cromwell vai direto à raiz – e na sua versão mais pura: o caráter. Quanto menos contaminado pelo ambiente ou pela experiência, maiores as chances de um indivíduo trazer consigo sinceridade, destemor, compaixão. Aderência a um código de valores, consistência moral, respeito à voz da consciência, tudo isso advém por consequência.
Muito lírico? Quem duvidar que tire a prova. Observe bem, e quando descobrir um
verdadeiro líder, veja se ele não é também uma pessoa íntegra, uma pessoa de caráter.
“Ética e lei são parentes, mas não parentes necessariamente próximos”.
“A lei nunca tornou os homens nem um pingo mais justos”.
Henry David Thoreau
“Não minta. Não trapaceie. Não roube”.
Código de ética lá em casa, quando eu era criança.
“O problema com os códigos de ética é que as pessoas que mais precisam deles – os altos executivos, precisamente por uma questão de altura – são os que menos os utilizam”.
“Moral é o que me faz sentir bem, depois”.
Ernest Hemingway
“A riqueza é um dos fins para viver feliz: os homens transformaram-na no único fim”.
Anatole France
“A verdadeira moralidade não consiste em seguir a trilha batida, e, sim, em descobrir uma verdadeira passagem para nós – e em segui-la ferozmente”.
Mahatma Gandhi.
“Quando os valores são frouxos, a ação é anêmica”.
“Você se conhece? Eu me conheci, e saí correndo”.
Johann Wolfgang Goethe
“Em questões de consciência, a lei da maioria não tem vez”.
Mahatma Gandhi
“O homem de terceira ordem só é feliz quando pensa com a maioria: o de segunda ordem, quando pensa com a minoria; o de primeira, quando pensa”.
Ricardo Milnes
“A escada solitária que conduz ao certo existe, mas ofuscada por nossos interesses e conveniências. Encontrá-la, todavia, é possível e está em cada um de nós consegui-lo. Basta recorrer aos próprios valores. O life defining moment apenas serve para testá-los. E não é qualquer teste, pois o que decidirmos irá moldar o nosso futuro”.
“Qualquer destino, por mais longo e complicado que seja, consta realmente de um momento só: o momento em que a pessoa sabe definitivamente quem ela é”.
Jorge Luis Borges
O conteúdo desta página foi extraído do livro “Ética & Negócios” de Júlio Lobos.
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